Escrita – espaço de intimidade
Ferramenta de autoinvestigação e com função terapêutica, a escrita na escola pode construir êxito ou trauma.

Por Karen Cardial

A linguagem traduz o que somos e como pensamos. Em um texto, há pistas que revelam o que inquieta o autor e como ele processa tais questões. Atos falhos aparecem, ideias se repetem, desvios se insinuam. Da escrita, podem ser puxados fios que tocam dimensões íntimas ainda não plenamente conscientes.

Índigo Ayer, escritora de literatura infantojuvenil, jornalista e roteirista, organiza retiros de escrita, realizados em um chalé em meio à natureza. Neles, Índigo recebe escritores e pessoas que desejam desenvolver um texto, começar ou finalizar um livro, seja com mentoria ou em períodos de solitude.

“Nos retiros, vejo que a escrita tem uma função terapêutica. A pessoa se coloca por inteira no texto, seja na ficção, no autobiográfico ou até em trabalhos acadêmicos”, afirma Índigo.

Vencedora do Prêmio Literatura para Todos, do Ministério da Educação, e finalista do Prêmio Jabuti, Índigo também realiza oficinas de escrita em escolas, com o suporte dos professores. Para ela, é nesse ambiente que a relação com a escrita começa a se formar.

A escritora defende que a escola precisa oferecer às crianças um espaço em que se sintam seguras para escrever, um ambiente de proteção, em que possam colocar palavras no papel, elaborar pensamentos e dar alguma ordem ao que está confuso.

A escritora Índigo Ayer acredita que, se o texto é bom, os erros gramaticais não devem diminuir a nota, pois escrever bem é expressar-se de maneira original e sedutora.

“A escola precisa oferecer às crianças um espaço seguro em que possam colocar palavras no papel e dar alguma ordem ao que está confuso” (Índigo Ayer)

“É violenta a atitude de um professor que corrige a redação de uma criança com caneta vermelha e dá nota. Essa atitude pode causar um trauma, porque a criança coloca ali todo o seu sentimento”, adverte.

Nesse sentido, a escrita na escola não pode estar restrita à avaliação ou à correção gramatical. Precisa também ser espaço de intimidade e elaboração.

“Acho que as crianças e os jovens não têm mais privacidade. Fazer coisas que não sejam para serem expostas, exibidas ou postadas. Por isso acredito cada vez mais na escrita dos diários, um lugar para desabafar e organizar os pensamentos que desperta fascínio nas crianças”, revela a escritora, que escreve em seu diário desde os 11 anos. Segundo ela, a escrita na escola tem duas funções: a técnica, por meio da gramática para a construção de um texto, e o desenvolvimento do pensamento crítico.

“Quando a criança começa a expressar-se, é preciso sensibilidade por parte dos professores, um entendimento de que acontecerão erros de ortografia e gramática, pois é uma fase da criança escritora. Se o texto é bom, os erros gramaticais não devem diminuir a nota, pois o valor de escrever bem é você conseguir se expressar de uma maneira original e sedutora”, pontua Índigo.

Literatura com bagagem

Monisa Maciel, educadora, explora e enxerga o livro como arte, e não apenas como objeto de aprendizado.

Monisa Maciel, educadora há 25 anos, ministra aulas de Literatura na Educação Infantil e no Ensino Fundamental. O trabalho com os estudantes desenvolvido por ela, que também é escritora de livros infantis, envolve um currículo literário em que há diversidade de autores, ilustradores, materialidade, formato dos livros e gêneros textuais. O livro é apresentado às crianças por meio da mediação de leitura, da contação de histórias e da leitura deleite. Muitas vezes, com base em experiências que os estudantes têm com a obra, são criadas oficinas brincantes, e a escrita surge como desdobramento.

Em seu trabalho, Monisa Maciel apresenta diversidade de autores, ilustradores, materialidade, formato dos livros e gêneros textuais.

“Criei o projeto Pequenos Autores, em que trabalho durante um semestre inteiro todo o processo do livro: a capa, as páginas, a importância de ter uma editora. A escrita está presente em todos os momentos”, conta.

Ao longo do semestre, os estudantes participam de todas as etapas da construção de um livro. Escolhem temas, organizam ideias, pensam na estrutura das páginas e acompanham o desenvolvimento da obra do início ao fim.

A participação não é obrigatória, mas o envolvimento acontece de forma espontânea.

“É gratificante vê-los engajados e escrevendo de forma criativa”, afirma.

No dia do lançamento, esse processo ganha visibilidade. “Os alunos usam uma roupa especial, sobem ao palco, recebem certificado e falam sobre a produção da sua obra, desde a ideia até a criação”, relata.

Escrita gigante

“No projeto de escrita, a tecnologia pode ser incorporada; trata-se de uma inovação que motiva os alunos. Por exemplo, usar a IA para ilustrar as histórias.” (Helder Guastti)

“Como diz o outro” é um projeto de escrita que nasceu da escuta e que, segundo os próprios estudantes do 5o ano do Ensino Fundamental I, é tido como ponto alto do semestre.

Criado pelo pedagogo Helder Guastti, especializado em alfabetização e letramento e finalista do Global Teacher Prize, tido como o Nobel da Educação, o projeto surgiu de uma conversa entre ele e a escritora Gabriela Romeu sobre a vida no interior.

A é que os estudantes passem a resgatar contos e causos vividos com familiares, especialmente nas experiências ligadas à vida no campo.

Em seguida, o trabalho se amplia para a comunidade, ou seja, eles conversam com moradores, registram ditados, provérbios, quadrinhas e expressões populares. Saem às ruas, perguntam, escutam, anotam.

Esse material resulta em produção escrita: um livro que reúne os textos produzidos pelos estudantes e os elementos coletados ao longo do processo. Cada criança recebe um exemplar, que também passa a integrar o acervo da escola e da Secretaria de Educação.

Durante o desenvolvimento do projeto, a tecnologia foi incorporada como recurso para ampliar seu alcance.

Helder propôs o uso da inteligência artificial para dar continuidade às histórias, o que gerou entusiasmo entre os estudantes. Por sua vez, estes sugeriram utilizar a ferramenta também na criação das ilustrações.

“O empenho das crianças foi grande e o resultado, belíssimo. Em todo o processo houve participação ativa dos alunos”, relata.

Para o professor, o ponto central está na escuta.

“Enquanto ambiente escolar, não devemos desconsiderar as vivências das crianças fora da escola. Ouvi-las é o que dá significado ao trabalho”, afirma.

Repertório criativo

Além da escuta e da experiência, a escrita também depende de outro elemento que precisa ser trabalhado na escola: a imaginação.

Izabela Alves, licenciada em Letras pela Universidade da Amazônia (Unama) e mestra em Estudos Literários pela Universidade Federal do Pará (UFPA), desenvolve atividades voltadas à criação em sala de aula.

Em uma das propostas, Izabela utiliza a escuta de música clássica como ponto de partida. “Convidei os estudantes a imaginar uma descida por um grande escorregador. Durante a viagem, peço que percebam o ritmo, a intensidade e os instrumentos que surgem ao longo do percurso”, explica a pedagoga.

“Enquanto a música rola, a sala se transforma. Apesar da inquietação comum à idade, o silêncio domina a classe”, diz, encantada.

Ao final, cada estudante descreve as sensações e emoções que viveu. A proposta, portanto, visa associar, criatividade, imaginação, movimento, velocidade e música.

“Os resultados foram incríveis”, relata.

A educadora explica que não adianta estimular a criatividade somente até o final do Ensino Fundamental e, devido ao programa extenso das séries seguintes, deixá-la esquecida. “Quando chega o último ano da escola, o aluno precisa ter criatividade para escrever um texto para o Enem, para trazer um repertório interessante, e isso é injusto. O ideal é que a criatividade seja fomentada na escola do início ao fim, pois é uma ferramenta fundamental”, conclui Izabela.

A escrita é uma etapa importante na vida do estudante, um gesto de ousadia, autoconhecimento e exposição.

A escola precisa oferecer o mínimo: privacidade, sensibilidade e direito ao erro.

Ali, além de responder a propostas, o estudante começa a construir sua própria opinião sobre o mundo e a expressá-la com a própria voz.