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A saúde dos afetos

Conheça a trajetória de Edgar Nogueira Lima e seu trabalho com saúde mental, sofrimento docente e políticas públicas de acolhimento no ambiente escolar.

A saúde dos afetos
Karen Cardial

Karen Cardial

Jornalista Especialista em Educação

  • Publicado em 21 outubro 2026

O adoecimento que Edgar Nogueira Lima enfrentou ao lecionar na rede pública, e que quase o levou a abandonar o magistério, despertou nele inquietações que mais tarde orientariam suas pesquisas sobre o sofrimento dos educadores. A experiência na sala de aula e na coordenação pedagógica permitiu-lhe conhecer de perto as dificuldades de professores que precisam lidar com demandas sociais e emocionais dos estudantes sem contar, muitas vezes, com a formação e o apoio necessários.

Psicólogo, pedagogo e doutor em Educação, com formação acadêmica na Universidade Estadual do Ceará (UECE) e na Universidade Lusíada do Porto, Edgar é pós-doutorando na Universidade de Brasília (UnB) e desenvolve pesquisas em saúde mental, políticas públicas e psicologia educacional. À frente do Serviço de Psicologia Escolar da Secretaria Municipal da Educação de Fortaleza, encontrou na construção de políticas públicas de saúde mental uma maneira de retribuir as oportunidades que a profissão lhe proporcionou.

1. Sua trajetória profissional está ligada à educação e à saúde mental no ambiente escolar. O que despertou seu interesse por essa área e quais experiências mais contribuíram para sua compreensão sobre os desafios enfrentados pelos professores?

Em 2010, concluí minha graduação em Pedagogia na Universidade Estadual do Ceará (UECE), onde havia sido bolsista de iniciação científica, com estudos em gestão escolar e políticas públicas, e ingressei por concurso na rede pública de ensino de Fortaleza. Fui trabalhar em uma escola situada em uma região de extrema vulnerabilidade social, distante de onde morava, o que exigia pegar três ônibus e passar por dois terminais tanto na ida ao trabalho quanto na volta.

Minha primeira experiência na docência foi marcada por dificuldades para as quais a formação universitária não me havia preparado. Além de assumir a alfabetização de crianças sem ter recebido a preparação necessária, encontrei uma realidade de vulnerabilidade social que desconhecia, inclusive o universo das drogas. Foi com os próprios alunos que conheci uma pedra de crack, um cachimbo e outros objetos utilizados no consumo da droga. 

Em menos de três meses, eu já estava adoecido e buscava uma maneira de sair da escola, mas, ao solicitar transferência, fui informado de que precisaria cumprir os três anos do estágio probatório antes de mudar de unidade. Cheguei a preparar minha carta de exoneração, tamanho era o sofrimento, até que, depois de muita insistência, consegui ser transferido para uma escola mais próxima de casa, ainda durante o estágio.

Mesmo depois da transferência, carregava as consequências daquela experiência, que se tornaria decisiva para minha compreensão do sofrimento psíquico dos professores. Ao assumir posteriormente a coordenação pedagógica, passei a reconhecer nas dificuldades dos docentes da minha equipe situações semelhantes às que havia enfrentado, o que me tornou especialmente sensível ao adoecimento daqueles profissionais e despertou meu interesse em investigar o tema.

Foi assim que cheguei ao mestrado acadêmico, no qual desenvolvi uma pesquisa sobre o sofrimento psíquico dos professores da Educação Básica. Meu interesse pela saúde mental docente nasceu, portanto, do próprio adoecimento que enfrentei como professor e ganhou profundidade quando, na gestão escolar, passei a acompanhar o sofrimento de outros educadores.

2. Com base em sua experiência e seus estudos, como você avalia o cenário atual da saúde mental dos professores da Educação Básica e quais aspectos dessa realidade considera mais preocupantes?

Quando assumi a coordenação pedagógica, percebi que o adoecimento dos professores costumava ser associado às cobranças por resultados nas avaliações externas. Essas pressões existem, mas minha experiência como professor indicava que havia outros fatores envolvidos no sofrimento docente, e foi isso que procurei compreender no mestrado.

Na pesquisa, ouvi mais de 70 professores e aprofundei as entrevistas com seis docentes de uma das escolas selecionadas, buscando compreender como percebiam o próprio adoecimento, sua relação com o trabalho e os impactos sobre a qualidade de vida. Um dos aspectos que mais me chamou a atenção foi o sofrimento provocado pela sensação de não conseguir exercer plenamente a docência, porque as necessidades sociais e emocionais dos estudantes exigiam dos professores uma atuação para a qual não haviam sido preparados.

Estamos falando de crianças que chegam à escola com fome, sem condições adequadas de higiene, com piolhos ou expostas à violência doméstica, além de estudantes que convivem com o consumo de álcool e outras drogas na família, dormem em casas superlotadas ou precisam trabalhar à noite. O professor encontra essas situações na sala de aula e precisa lidar com elas antes mesmo de conseguir ensinar o conteúdo previsto.

A essas dificuldades somam-se questões de saúde mental, como ansiedade e depressão, além das necessidades de estudantes neurodivergentes, das dificuldades de linguagem e comportamento e dos episódios de indisciplina. São demandas que exigem conhecimentos e apoio de diferentes áreas, mas que acabam concentradas no professor, como se ele também tivesse de desempenhar as funções de psicólogo, assistente social e profissional de saúde.

Esse sofrimento não se restringe às escolas públicas nem desaparece necessariamente nas instituições com boa infraestrutura. Também pode estar presente na rede privada, porque as dificuldades vividas pelos estudantes e suas famílias chegam à sala de aula independentemente das condições materiais da escola. O que mais me preocupa é justamente essa sobrecarga de responsabilidades, que coloca o professor diante de problemas complexos sem que ele disponha da formação e do suporte necessários para enfrentá-los, comprometendo sua saúde mental e sua própria percepção de capacidade profissional.

3. Quais sinais de sofrimento psíquico merecem atenção especial entre os professores e como diferenciá-los das manifestações de cansaço e estresse que podem ocorrer na vida profissional?

Existe um fenômeno conhecido como fadiga por compaixão, que pode atingir profissionais que trabalham diretamente com o sofrimento humano, como aqueles das áreas de educação, saúde, assistência social e serviços de emergência. São pessoas que dedicam grande parte de sua energia a acolher, cuidar e oferecer assistência aos outros, muitas vezes sem receber o suporte de que também necessitam.

Na escola, o professor pode se deparar diariamente com estudantes que apresentam sinais de depressão, ansiedade, automutilação ou que enfrentam violência doméstica, trabalho infantil, fome e negligência familiar. O acúmulo dessas experiências pode produzir uma exaustão que se manifesta na relação com o trabalho e com as pessoas.

Entre os sinais que merecem atenção estão a impaciência, a intolerância a regras e cobranças, os conflitos com colegas e gestores, as reações agressivas, a insônia e o cansaço extremo. Também podem surgir manifestações físicas associadas ao sofrimento emocional, como problemas de pele, além de quadros de esgotamento profissional e outras condições de saúde que exigem avaliação especializada.

Uma distinção importante é observar o que acontece depois dos períodos de descanso. O cansaço e o estresse relacionados a determinadas situações de trabalho podem diminuir após um fim de semana, um período de férias ou uma viagem, mas, quando o sofrimento persiste, o descanso deixa de ser suficiente e o professor pode começar a perder o sentido da própria atividade profissional. É preciso observar, sobretudo, quando ele já não se reconhece no trabalho que realiza.

4. Quando pensamos na prevenção do adoecimento emocional dos professores, qual é a importância das estratégias individuais de autocuidado e das condições de trabalho oferecidas pelas instituições de ensino?

O autocuidado é importante porque precisamos reconhecer nossos limites e identificar quando determinadas situações começam a comprometer nossa saúde. Mas existe um risco quando toda a responsabilidade pela prevenção do adoecimento é colocada sobre o professor, como se bastasse que ele cuidasse melhor de si para conseguir enfrentar qualquer condição de trabalho.

As instituições também têm responsabilidades, especialmente na organização do trabalho, na qualidade das relações e no suporte oferecido aos profissionais. Ao mesmo tempo, precisamos evitar um jogo de culpabilização, no qual a escola atribui o adoecimento à falta de autocuidado do professor e o profissional responsabiliza exclusivamente a instituição. A prevenção exige compromisso de ambas as partes e, sobretudo, o reconhecimento de que há problemas que a escola não consegue resolver sozinha.

A Lei nº 13.935, de 2019, prevê a prestação de serviços de psicologia e serviço social nas redes públicas de Educação Básica, justamente porque essas demandas precisam de profissionais qualificados e de uma atuação articulada.

Em 2023, incluímos no calendário escolar a Semana de Saúde Emocional na Escola, realizada na última semana de cada mês, e elaboramos um guia para orientar as atividades. Em 2026, lançamos uma nova versão desse material, com 26 estratégias que podem ser desenvolvidas durante o ano letivo para fortalecer as relações e promover o cuidado no ambiente escolar.

Essas propostas trabalham o que denomino competências relacionais escolares, conceito que desenvolvi com base em estudos em Psicologia, clima escolar, cultura de paz e habilidades socioemocionais. São estratégias voltadas ao respeito, ao autocuidado e à qualidade da convivência entre os diferentes integrantes da comunidade escolar. A escola não substitui os serviços de saúde, mas pode construir relações mais saudáveis e desenvolver uma cultura de cuidado que contribua para prevenir o sofrimento.

5. À frente do Serviço de Psicologia Escolar da Secretaria Municipal da Educação de Fortaleza, quais iniciativas de acolhimento e promoção da saúde mental dos professores vêm sendo desenvolvidas na rede?

O Serviço de Psicologia Escolar da rede municipal de Fortaleza desenvolve ações com estudantes, professores e gestores, buscando compreender as dificuldades presentes no cotidiano escolar e construir estratégias de cuidado coletivo. O trabalho considera que o sofrimento de um integrante da comunidade pode afetar suas relações com os demais, o que exige atenção à convivência e à saúde emocional de todos.

Em parceria com a organização Terra dos Homens, desenvolvemos os livros de atividades Rotinas de autocuidado, destinados aos estudantes dos Anos Iniciais e Finais do Ensino Fundamental. O material apresenta dez rotinas sobre ansiedade, luto, bullying, gestão de conflitos e projeto de vida, com propostas de autorreflexão e espaços para que os alunos registrem suas experiências, em um formato semelhante ao de um diário.

A rede municipal conta ainda com a Academia do Professor, espaço dedicado à saúde integral dos educadores, com atividades relacionadas à saúde física e mental, Educação Física e Nutrição. Essas iniciativas integram o trabalho de promoção do bem-estar na rede, enquanto nossa atuação nas escolas procura fortalecer as relações e a cultura de cuidado coletivo, fundamentais para a saúde emocional dos professores e de toda a comunidade escolar.

Dia do Professor
“A aprendizagem é um processo eminentemente relacional, pois, além de depender das relações que o estudante estabelece entre os conhecimentos que já tem e aqueles que está adquirindo, é construído no encontro entre quem ensina e quem aprende, envolvendo vínculos afetivos, confiança e a qualidade da relação com o professor.”

6. Considerando a realidade das escolas públicas, que práticas podem ser adotadas por diretores e coordenadores pedagógicos para promover um ambiente de trabalho emocionalmente saudável?

Diretores e coordenadores pedagógicos precisam lidar com uma responsabilidade complexa: atender às metas, aos indicadores e às exigências da Secretaria de Educação sem perder de vista as condições de saúde dos profissionais responsáveis por alcançar esses resultados. Uma escola pode apresentar bons indicadores e, ao mesmo tempo, ter professores profundamente adoecidos, o que exige da gestão atenção à qualidade das relações e ao clima de trabalho.

Gosto de comparar o professor a uma vela que vai sendo consumida para iluminar a vida de um estudante, mas essa luz não se sustenta quando a vela se apaga. Precisamos cuidar de quem ensina para que o trabalho educativo possa continuar, sem exigir que o profissional sacrifique a própria saúde para cumprir sua função.

Em algumas situações, professores que já enfrentam sofrimento na docência veem na coordenação pedagógica ou na direção uma oportunidade de escapar da sala de aula. Assumem cargos de gestão com a sensação de que finalmente se livraram daquela realidade, mas levam consigo um adoecimento que não foi cuidado. Eu mesmo assumi a coordenação pedagógica ainda marcado pelo sofrimento que havia experimentado como professor, por isso reconheço a importância de compreender as motivações e as condições emocionais de quem chega à gestão. 

Diretores e coordenadores precisam estar genuinamente comprometidos com o bem-estar da equipe e com a construção de relações saudáveis, porque suas decisões e sua maneira de se relacionar com os profissionais influenciam diretamente o ambiente escolar.

Uma gestão comprometida com a saúde mental precisa ouvir os professores, reconhecer seus limites, cuidar da convivência e buscar apoio quando surgem situações que exigem conhecimentos de outras áreas. Os resultados pedagógicos continuam sendo importantes, mas devem ser buscados em um ambiente no qual os profissionais tenham condições de trabalhar e permanecer saudáveis.

7. De que maneira a saúde mental dos professores pode influenciar suas práticas pedagógicas, as relações com os estudantes e os processos de ensino e aprendizagem?

A aprendizagem é um processo eminentemente relacional, pois, além de depender das relações que o estudante estabelece entre os conhecimentos que já tem e aqueles que está adquirindo, é construído no encontro entre quem ensina e quem aprende, envolvendo vínculos afetivos, confiança e a qualidade da relação com o professor.

Quando um docente está adoecido, pode encontrar dificuldades para estabelecer essas relações, acolher os estudantes e desenvolver seu trabalho pedagógico com a qualidade que gostaria. O sofrimento também pode afetar a convivência com os colegas e a equipe gestora, comprometendo o clima da escola. Por isso, considero que a saúde mental dos professores tem uma relação direta com a qualidade da aprendizagem.

Essa influência ocorre nos dois sentidos. Assim como o sofrimento docente pode afetar os estudantes, as dificuldades emocionais e sociais vividas pelos alunos também repercutem nos professores. Uma criança que enfrenta violência, negligência ou outros problemas graves leva essas experiências para a escola, onde o educador precisa lidar com situações que podem produzir sofrimento e sobrecarga.

Também precisamos reconhecer que o adoecimento não começa necessariamente no ambiente profissional. Um professor pode estar enfrentando um luto familiar, por exemplo, e levar para o trabalho um sofrimento que ainda não conseguiu elaborar. Na perspectiva da psicologia histórico-cultural, nossa saúde mental se constitui nas relações que estabelecemos, dentro e fora da escola, e essas experiências não ficam separadas quando entramos na sala de aula.

Por isso, o cuidado precisa alcançar a comunidade escolar e considerar a qualidade das relações entre estudantes, professores, gestores e famílias. Em algumas situações, será necessário buscar acompanhamento psicológico ou psicoterapia, porque existem sofrimentos que exigem atenção especializada. Quanto melhores forem as condições emocionais e relacionais de quem participa do processo educativo, maiores serão as possibilidades de construir experiências de ensino e aprendizagem saudáveis.

8. Neste Dia do Professor, que reflexão você gostaria de compartilhar com os educadores e gestores escolares sobre a valorização da docência e a necessidade de cuidar da saúde mental de quem ensina?

Gosto muito da poesia de Manoel de Barros, especialmente da maneira como ele nos convida a olhar para a vida e para as possibilidades de transformação. A docência também exige esse olhar, porque trabalhamos com pessoas, com histórias e com relações que não podem ser reduzidas a procedimentos mecânicos.

Somos seres relacionais, e a maneira como nos constituímos profissionalmente está ligada às experiências que vivemos e aos vínculos que construímos. A psicologia histórico-cultural, especialmente a fundamentada nos estudos de Vygotsky, ajuda a compreender a importância dessas relações e dos afetos na formação humana. Por isso, considero fundamental que cada professor reflita sobre sua relação com a profissão, sobre o sentido que encontra no trabalho e sobre as condições em que exerce a docência.

Precisamos reconhecer nossos limites, cuidar da própria saúde e buscar ajuda quando necessário, mas as instituições também devem oferecer condições adequadas de trabalho, sem responsabilizar individualmente os professores pelo adoecimento. Valorizar a docência significa garantir respeito, remuneração digna, políticas públicas que assegurem direitos e ambientes profissionais saudáveis.

Também considero importante que o educador se pergunte se ainda se reconhece na profissão e na função social que escolheu exercer. Em alguns momentos, pode ser necessário buscar outros caminhos dentro da própria Educação, como a gestão ou a administração educacional, especialmente quando a atuação em determinada função já não proporciona realização profissional. O essencial é compreender essa escolha e não transformar uma mudança de cargo em uma tentativa de fugir de um sofrimento que continua sem cuidado.

Minha própria trajetória foi construída com base nessas inquietações, quando, depois do mestrado, cursei Psicologia como segunda graduação e, no doutorado, aprofundei minhas pesquisas em Psicologia Escolar. Hoje, à frente do Serviço de Psicologia Escolar da Secretaria Municipal da Educação de Fortaleza, participo da construção de políticas públicas de saúde mental, uma maneira que encontrei de retribuir à Educação as oportunidades que a profissão me ofereceu.

Eu sou professor e sou psicólogo, e reconheço a função social dessas duas profissões. Não compreendo a docência como uma missão que exige sacrifício pessoal, mas como um trabalho que precisa ser valorizado e respeitado, com direitos assegurados e condições para que os profissionais possam ensinar, cuidar de si e contribuir para a transformação da sociedade.

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