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Escolhas têm valor

Presente na BNCC, a educação financeira pode passar a integrar a LDB como tema transversal, ampliando sua presença nas diferentes disciplinas da Educação Básica.

Escolhas têm valor
Karen Cardial

Karen Cardial

Jornalista Especialista em Educação

  • Publicado em 28 setembro 2026

Dinheiro faz parte de decisões que envolvem desejos, limites, prioridades e frustrações. Por isso, ensinar crianças e adolescentes a lidar com ele envolve uma dimensão que nem sempre recebe a mesma atenção que os cálculos e conceitos relacionados às finanças: a inteligência emocional.

Levar essa dimensão para a escola amplia o próprio significado da educação financeira, porque o aprendizado envolve tanto a compreensão do dinheiro e de seu funcionamento quanto os comportamentos presentes nas escolhas que fazemos com os recursos disponíveis. Na Educação Básica, esse trabalho já encontra respaldo na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que prevê a abordagem transversal do tema.

Em julho de 2026, a educação financeira avançou no campo legislativo. O Senado aprovou o Projeto de Lei nº 2.979/2023, que prevê sua inclusão na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) como tema transversal e integrador nos currículos do Ensino Fundamental e do Ensino Médio.

Nos sete anos em que atua com educação financeira infantil, a psicóloga Priscila Rossi acompanhou o crescimento de iniciativas, projetos e materiais didáticos nas escolas. Idealizadora da Escola da Educação Financeira Infantil e responsável por uma capacitação na área com chancela do Ministério da Educação (MEC), ela avalia que uma eventual mudança na LDB tende a ampliar a responsabilidade das redes de ensino sobre a formação dos professores, os materiais utilizados e a progressão da aprendizagem.

Parte dessa discussão passa pela maneira como crianças e adolescentes aprendem a tomar decisões. Antes de dominar conceitos financeiros mais complexos, eles já convivem com situações que exigem espera, escolha, limite e renúncia.

“É fundamental desenvolver a inteligência emocional. Saber lidar com a frustração, saber esperar, fazer boas escolhas, estabelecer prioridades e compreender que não podemos ter tudo o que queremos no momento em que desejamos são habilidades fundamentais para que tenhamos uma vida financeira saudável quando adultos”, afirma Priscila.

Por etapas

Na Educação Infantil, Priscila propõe trabalhar situações em que a criança tenha de esperar, pesquisar antes de escolher, decidir diante de recursos limitados e perceber as consequências de uma escolha. Cuidar das coisas tem também entra nesse aprendizado, assim como começar a compreender a diferença entre aquilo de que precisa e aquilo que deseja. Já os conceitos de orçamento e de investimento, nessa idade, ainda estão distantes da experiência infantil.

No Ensino Fundamental, o dinheiro pode entrar de maneira concreta. As crianças já compreendem para que ele serve, de onde vem, o que é preço, como funciona o troco e o que acontece quando o valor disponível não permite levar tudo. Conforme avançam na escolaridade, o repertório incorpora orçamento, planejamento, definição de metas, consumo consciente e a influência da publicidade nas decisões de compra.

Um projeto com estudantes dessa etapa pode acompanhar o percurso de um produto até sua chegada ao mercado. A investigação começa pela matéria-prima e segue pelas etapas de produção, pelos lugares por onde o produto passou e pelos impactos desse processo no ambiente. Priscila sugere, quando possível, levar as crianças a conhecer algum local relacionado à produção, aproximando conceitos econômicos e ambientais de algo que possam observar.

No Ensino Médio, primeiro emprego, salário, impostos, endividamento e investimentos passam a conversar diretamente com decisões que os jovens começarão a tomar na vida adulta. Para quem percorreu essa formação desde a infância, esses conteúdos chegam apoiados em experiências anteriores de escolha, planejamento, consumo e uso de recursos.

“Não vamos antecipar conteúdo do universo financeiro só para dizer que estamos falando de finanças. Precisamos entender o que aquela criança ou aquele adolescente tem condição de compreender e quais temas podemos abordar de acordo com a fase em que o estudante se encontra”, diz Priscila.

“A educação financeira deve estar presente em diferentes disciplinas, conectada aos conteúdos que já fazem parte do currículo”, afirma Priscila Rossi.

Transversalidade na prática

A educação financeira encontra pontos de contato com diferentes componentes curriculares e pode ser trabalhada com base em conteúdos que já fazem parte das disciplinas.

Em Língua Portuguesa, a publicidade oferece material para analisar como a linguagem influencia o consumo e quais recursos são utilizados para despertar o desejo. Ciências pode trabalhar sustentabilidade e desperdício e discutir como as escolhas de consumo interferem no ambiente. História permite estudar a origem e a evolução do dinheiro, as diferentes formas de troca que existiam antes dele, o dinheiro em outros países e as relações de trabalho. Em Geografia, são abordados os meios de produção e consumo, a desigualdade social e a distribuição de recursos.

Uma experiência da própria escola pode reunir várias dessas aprendizagens. Para uma turma de 9º ano, Priscila sugere transformar a organização da festa de formatura em uma situação pedagógica. Com um orçamento determinado, os estudantes precisam pesquisar preços, comparar opções de produtos e serviços, negociar descontos e descobrir quanto conseguem realizar com o dinheiro disponível.

O limite financeiro obriga o grupo a estabelecer prioridades e decidir o que considera imprescindível, o que pode ser dispensado e do que está disposto a abrir mão. A Matemática aparece na elaboração do orçamento, nos cálculos, na comparação de preços e na negociação de descontos. Em Língua Portuguesa, os estudantes podem elaborar uma proposta de negociação e produzir o convite para as famílias. A escolha dos alimentos permite discutir quais produtos serão servidos e calcular as quantidades necessárias de acordo com o número de convidados.

Organizar a festa exige ainda decisões que nenhuma conta resolve: conciliar preferências, chegar a escolhas que atendam ao grupo e lidar com a frustração quando algo desejado precisa ficar fora do orçamento.

“Os alunos vão perceber que não poderão comprar tudo o que gostariam. Terão de estabelecer prioridades, negociar e fazer escolhas. Todas essas competências são extremamente importantes para a vida financeira”, explica Priscila.

A festa de formatura já faria parte da programação da escola. A proposta é aproveitar a própria organização do evento como uma atividade de educação financeira, envolvendo diferentes disciplinas e decisões concretas dos estudantes.

Peça-chave

A formação docente é peça-chave para levar a educação financeira às diferentes disciplinas com consistência. O professor precisa conhecer as aprendizagens adequadas a cada faixa etária, identificar as conexões do tema com sua área e saber conduzir discussões que envolvem consumo, escolhas, planejamento e comportamento. “Se engana quem acha que não precisamos de um professor exclusivo de educação financeira e que qualquer professor pode fazer esse trabalho. O professor precisa de formação para entender como a educação financeira conversa com outras áreas e para orientar os alunos”, afirma.

Essa preparação envolve compreender quais competências podem ser desenvolvidas, o que os estudantes estão preparados para aprender em cada etapa e como integrar o tema aos conteúdos que já fazem parte do currículo. Há ainda um aspecto que Priscila considera pouco discutido: o professor também tem uma vida financeira e chega à escola com crenças, hábitos e comportamentos relacionados ao dinheiro.

Essa bagagem merece atenção porque o educador mediará discussões sobre consumo, escolhas, prioridades e planejamento. As próprias crenças, os hábitos os e comportamentos do professor em relação ao dinheiro precisam ser reconhecidos para que suas escolhas pessoais não sejam tomadas como referência na condução do tema com os estudantes. A formação ajuda o educador a separar sua experiência particular dos conhecimentos e das competências que devem orientar o trabalho pedagógico.

Para muitos professores, a dificuldade começa na ausência de uma formação anterior sobre o assunto: “Como vou ensinar aquilo que eu não aprendi?” é uma pergunta que, segundo Priscila, aparece tanto entre educadores quanto entre pais.

Essa formação precisa chegar às redes de ensino como uma responsabilidade institucional, com gestores e coordenadores pedagógicos envolvidos na construção do trabalho. A atuação conjunta da equipe permite organizar a presença do tema ao longo da Educação Básica e oferecer aos professores suporte para incorporá-lo às diferentes disciplinas.

Com o que se tem à mão

Desde que a educação financeira passou a integrar a BNCC, cresceram as iniciativas, os materiais e os projetos voltados às escolas. A maneira como o tema chega aos estudantes, porém, ainda varia bastante. Algumas escolas mantêm projetos consistentes e articulados a diferentes componentes curriculares. Em outras, o assunto aparece em uma atividade pontual, permanece concentrado nas aulas de Matemática ou se resume a uma palestra realizada para cumprir uma exigência, sem continuidade no trabalho pedagógico.

Uma análise do currículo pode revelar que a educação financeira já aparece em atividades existentes sem ser identificada dessa forma. Discussões sobre publicidade e consumo, projetos de sustentabilidade, estudos sobre produção e atividades que envolvem escolhas ou administração de recursos oferecem pontos de contato que podem ser reconhecidos e planejados com maior intencionalidade.

“Não é necessário começar do zero. A escola pode olhar para aquilo que já existe, entender o que precisa ser melhorado e organizar essas informações para que haja uma progressão da aprendizagem”, afirma Priscila.

O mapeamento permite saber o que já é desenvolvido, localizar lacunas e organizar uma sequência por faixa etária e ano escolar. Com isso, o trabalho deixa de depender de ações independentes e passa a acompanhar o estudante ao longo da Educação Básica.

O exemplo vem de casa

Principalmente entre as crianças menores, a relação com o dinheiro é construída em grande medida pela observação. Antes de compreender conceitos financeiros, elas acompanham como os adultos compram, escolhem, estabelecem prioridades, reagem quando um desejo não pode ser atendido e administram os recursos disponíveis.

A família, portanto, participa dessa aprendizagem mesmo quando não fala explicitamente sobre finanças. Se a escola trabalha escolhas, limites, consumo e planejamento, o comportamento observado em casa continuará oferecendo à criança referências sobre como lidar com essas situações.

“A criança aprende muito observando o que o adulto faz. Às vezes, o trabalho é feito na escola e a família em casa não dá continuidade. Precisamos dessa parceria para que as informações que o aluno recebe na escola sejam fortalecidas em casa”, afirma Priscila.

Incluir as famílias ajuda a aproximar o conteúdo escolar das experiências que continuam depois da aula e dá aos adultos a oportunidade de compreender o que está sendo desenvolvido com as crianças.

A inteligência emocional está presente nas diferentes experiências que fazem parte da educação financeira, diante dos limites e das possibilidades que ela oferece: na frustração de adiar um desejo e na satisfação de alcançar uma meta depois de planejar, investir e fazer escolhas conscientes, bem como na capacidade de estabelecer prioridades e de desfrutar com equilíbrio daquilo que se conquistou. Ao criar oportunidades para que crianças e adolescentes vivenciem essas experiências, reflitam sobre elas e tomem decisões, a escola participa da construção, no presente, de uma relação mais consciente, positiva e autônoma com o dinheiro, com a própria vida e com os projetos que os estudantes desejam realizar.

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Educação financeira

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