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O céu, um livro aberto

A educadora indígena Cristine Takuá defende currículos mais conectados aos territórios, à ancestralidade e aos saberes das comunidades como caminho para transformar a educação brasileira.
Foto de Karen Cardial

Karen Cardial

Jornalista Especialista em Educação

  • Publicado em 25 junho 2026

Escutar o território, reconhecer os saberes presentes na vida cotidiana e valorizar o que cada criança traz consigo são reflexões que Cristine Takuá considera urgentes para a educação brasileira. Filósofa, educadora indígena, diretora do Instituto Maracá, conselheira da TV Cultura e coordenadora do movimento Escolas Vivas, Cristine acredita que os povos originários têm muito a ensinar à escola brasileira quando o assunto é aprendizagem, currículo e formação humana.

“A gente precisa aprender a escutar; a escuta que brota do dia a dia. Aprender com os sonhos, com a delicadeza da diversidade que habita em cada um. Para nós, os jovens indígenas são sementes para o futuro”, declara Cristine.

Nas comunidades indígenas, crianças, jovens e anciãos são reconhecidos como detentores de saberes. Os processos educativos procuram valorizar aquilo que cada pessoa traz consigo, seus talentos, suas experiências e suas formas de perceber o mundo. A aprendizagem acontece na convivência, na observação e nas relações construídas ao longo da vida.

Segundo Cristine, a vida é uma grande teia de relações em que todas as formas de vida devem ser respeitadas. A vida dos rios, das montanhas, das abelhas, das formigas. A vida das mães: mães pacas, mães cutias, mães lontras e mães onças.

 “Desde os processos de alfabetização, são trazidos elementos que não fazem parte da vida das crianças e dos jovens. Aparecem zebras, girafas, rinocerontes, seres que não são aqui do nosso território de Mata Atlântica”, observa a educadora.

Rios, montanhas, plantas, animais e outros elementos presentes no lugar onde as crianças vivem, ocupam um espaço menor nas salas de aula. Para a filósofa e educadora indígena, a escola ainda conhece pouco as comunidades às quais pertence e os saberes que já existem nelas.

“Os conhecimentos que são ensinados na escola deveriam versar sobre o território em que se habita. Conhecer os seres vegetais, animais e minerais que habitam no próprio território.”

Para a especialista indígena, é preciso desapegar da forma teórica de transmitir conhecimento, focada principalmente em letras e números.

“Os saberes vinculados à vida, ao território e à natureza fortalecem a existência humana, que precisa se reconectar com a natureza e com todas as formas de vida”, declara.

“Os saberes vinculados à vida, ao território e à natureza fortalecem a existência humana, que precisa se reconectar com a natureza e com todas as formas de vida.” (Cristine Takuá) | Crédito da imagem: Carlos Papá

Constelação curricular

A organização do conhecimento em disciplinas isoladas nem sempre favorece conexões entre a vida, o território e a comunidade. Cristine fala de uma relação de ensino e aprendizagem conectada à ancestralidade de cada povo e de cada comunidade educativa. O conhecimento ancestral, transmitido ao longo de gerações, segue oferecendo caminhos para compreender o mundo em um tempo em que a inteligência artificial ocupa quase todos os espaços.

“Eu penso numa constelação curricular, onde o céu também é um livro aberto. Cada cultura tem a leitura da terra, das constelações e das florestas, que são códigos construídos ao longo das gerações. Saber ler esses códigos é conhecer o chão que estamos pisando”, ilustra.

Para Cristine, recuperar essas formas de leitura do mundo ajuda a fortalecer o vínculo das crianças com os lugares onde vivem e amplia a compreensão sobre as diferentes maneiras de produzir conhecimento.

“As formigas transmitem códigos quando vai chover, os trovões, as nuvens, as ondas do mar. Existem muitos códigos que hoje já não são decifrados porque as escolas pararam de ensinar”, constata.

A transformação dos currículos passa também pela forma como o Brasil olha para sua própria história. Cristine lembra que a colonização violenta impôs uma verdade que marcou corpos, memórias e territórios, fazendo com que conhecimentos ancestrais adormecessem.

“Eu acredito que memória não morre nem se apaga, apenas adormece.”

A educadora avalia que esse processo explica a dificuldade da escola em dialogar com a diversidade cultural do país. A defesa de uma educação voltada para o bem-viver está diretamente ligada ao reconhecimento dessa pluralidade e das culturas que habitam cada território.

“Eu não consigo conceber uma educação que não seja um encontro para o bem-viver, para acessar esse bem-viver, que é a boa e bela maneira de ser e estar no território. É importante que se entenda que nós vivemos em um país multiverso, multilíngue, multicultural e espiritual. A transformação tem que vir de dentro para fora, entendendo a comunidade educativa e toda a cultura que habita nesse território educativo”, pontua.

Formar para a diversidade

Cristine identifica um equívoco recorrente na forma como as escolas abordam os povos originários. O tema costuma aparecer concentrado em atividades realizadas durante o mês de abril, e os indígenas ainda são apresentados, muitas vezes, como personagens do passado.

O Brasil abriga mais de 300 povos indígenas, com línguas, espiritualidades e formas distintas de compreender o mundo. “Os povos indígenas estão em todos os lugares, nas universidades, nos meios de comunicação. Essa diversidade ainda é pouco conhecida por muitos professores”, analisa a educadora.

Apesar de a Lei n. 11.645, de 2008, ter tornado obrigatório o ensino da história e da cultura indígenas nas escolas brasileiras, a formação inicial de docentes ainda dedica pouca atenção ao tema. Em sua avaliação, cursos de licenciatura em áreas como História, Geografia, Arte e Pedagogia precisam aprofundar o estudo dessa diversidade para que os futuros professores se sintam preparados para trabalhar o assunto ao longo de todo o ano.

“A demarcação dos territórios deveria ser uma luta de todo o povo brasileiro. Sem água limpa e sem ar puro, ninguém vive”, afirma Cristine. 

As culturas indígenas não pertencem a uma única disciplina nem a uma data específica do calendário escolar. Podem dialogar com diferentes áreas do conhecimento e ampliar o repertório dos estudantes sobre o país em que vivem.

escola indígena

Línguas vivas

Ibirapuera, Anhanguera, Anhangabaú: nomes que ajudam a contar uma história de resistência das línguas indígenas no Brasil e são pronunciados diariamente por milhões de brasileiros.

 “Uma das mudanças que eu faria é justamente trazer as línguas indígenas para dentro do currículo das escolas”, argumenta Cristine. Ela sugere que as crianças tenham a oportunidade de aprender uma língua originária da região onde vivem e reconheçam que esses idiomas continuam sendo falados por muitos povos até hoje.

“Existem línguas originárias que resistem há muitos séculos”, afirma.

A proposta se conecta a uma visão ampla de educação, presente na trajetória da educadora. Uma escola que reconhece os saberes do território valoriza a memória, fortalece vínculos com a comunidade e amplia as formas de compreender o mundo.

Cristine cita o movimento Escolas Vivas como uma das expressões desse caminho. Um convite para conceber a vida de maneira mais respeitosa e em conexão com todas as formas de vida.

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