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Olhar afinado

Média divulgada pelo Saeb conta parte da história; o diagnóstico começa na leitura dos dados.
Saeb
Foto de Karen Cardial

Karen Cardial

Jornalista Especialista em Educação

  • Publicado em 28 julho 2026

Uma mesma nota pode contar histórias diferentes sobre a aprendizagem em uma escola. A média divulgada pelo Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) reúne parte das informações produzidas pela avaliação, mas não revela como os estudantes se distribuem entre os diferentes níveis de desempenho, quais grupos enfrentam maiores dificuldades nem as desigualdades presentes por trás daquele resultado. Ler esses dados com profundidade permite transformar números em diagnósticos e orientar medidas e decisões capazes de fortalecer a aprendizagem.

A diretora de dados do Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede), Bruna Alves Soares, mestre em Ciências Econômicas pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora com mais de dez anos de atuação nas áreas de Economia Social e Educação, afirma que os resultados das avaliações externas oferecem às redes e às escolas um conjunto de evidências capaz de orientar políticas públicas, apoiar a gestão educacional e acompanhar a aprendizagem dos estudantes. “Os resultados devem ser utilizados para orientar decisões, definir prioridades e acompanhar se as ações adotadas estão contribuindo para um melhor aprendizado dos nossos estudantes”, afirma.

Bruna Alves Soares
Segundo Bruna Soares, bons resultados de aprendizagem não eliminam a necessidade de acompanhar reprovação e abandono, já que a análise conjunta desses indicadores ajuda a direcionar as ações da escola.

O Saeb avalia estudantes do 2º, 5º e 9º anos do Ensino Fundamental e da 3ª série do Ensino Médio em Língua Portuguesa e Matemática. Além da proficiência média, a avaliação mostra como os estudantes se distribuem entre diferentes níveis de desempenho. O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) utiliza esses resultados e incorpora outro componente, o fluxo escolar, calculado com base nas taxas de aprovação. A combinação desses indicadores amplia a compreensão sobre a aprendizagem, mas também exige uma leitura cuidadosa dos dados.

A composição do Ideb ajuda a explicar por que uma mesma nota pode representar situações bastante diferentes entre escolas, já que o indicador combina os resultados de aprendizagem obtidos no Saeb com o rendimento escolar, medido pelas taxas de aprovação. Bruna exemplifica: “Uma escola que alcança média padronizada 6 e registra aprovação de 90% obtém Ideb 5,4. Isso significa que a escola pode apresentar boa aprendizagem, mas terá um Ideb menor caso registre taxas elevadas de reprovação e abandono.”

Mesmo reunindo informações sobre aprendizagem e fluxo escolar, o indicador ainda deixa aspectos importantes fora da análise. O Ideb não permite identificar, por exemplo, como foi o desempenho de estudantes em situação de maior vulnerabilidade socioeconômica nem comparar os resultados de estudantes pretos, pardos e indígenas com os dos demais grupos.

“Essas são informações muito importantes para orientar e levar cada vez mais para as redes e para as escolas um olhar direcionado à equidade”, afirma Bruna.

A divulgação dos resultados marca o início de um processo de análise que precisa acompanhar todo o ano letivo. Para Bruna, a construção de uma cultura de dados depende da capacidade de reunir diferentes informações sobre a aprendizagem dos estudantes e utilizá-las para orientar o planejamento pedagógico.

“As redes e escolas devem utilizar não só as avaliações externas, realizadas a cada dois anos, mas também informações produzidas pelas próprias redes, como avaliações internas e dados coletados pelas secretarias de ensino, para que possam moldar cada vez mais suas ações com base em dados”, orienta.

A análise também precisa ir além da proficiência média divulgada pelo Saeb. A evolução da aprendizagem ao longo do tempo, a distribuição dos estudantes entre os diferentes níveis de desempenho, as diferenças entre etapas de ensino e componentes curriculares e os resultados de grupos em situação de maior vulnerabilidade ajudam a construir um diagnóstico mais consistente.

Bruna recorre a um exemplo para mostrar por que a média, isoladamente, não traduz a realidade de uma escola: “Se a minha escola atingiu 250 pontos em Língua Portuguesa no 5º ano do Ensino Fundamental, à primeira vista parece um bom resultado. Mas pode ser que eu tenha uma parcela significativa de estudantes abaixo do básico, compensada por outro grupo que apresenta desempenho superior. A média esconde algumas desigualdades importantes que requerem estratégias para lidar com elas.”

A interpretação dos resultados também exige cautela. Comparações apressadas e leituras descontextualizadas podem levar redes e escolas a conclusões equivocadas e comprometer as decisões tomadas com base nesses indicadores.

Um dos exemplos mais frequentes, segundo Bruna, é a divulgação de rankings entre estados, municípios e escolas. “O ranking praticamente não faz os juízos, porque a gente está ordenando entes que têm características completamente diferentes. Pode ser em relação ao perfil socioeconômico, ao porte ou até mesmo às características da oferta educacional”, discorre.

Outro equívoco recorrente, acrescenta a pesquisadora, é interpretar o crescimento dos resultados apenas em termos percentuais. A escala do Saeb deve ser a principal referência para essa análise. “O ideal é que a gente olhe para o crescimento dentro da escala do Saeb. Quantos pontos cresceu? Esse crescimento é expressivo?”

Bruna também chama atenção para comparações feitas entre Língua Portuguesa e Matemática com base na pontuação obtida em cada componente curricular. Como as escalas das duas disciplinas são diferentes, elas não permitem comparações diretas. A leitura dos resultados, explica, deve considerar a evolução dos estudantes em uma mesma disciplina ao longo das diferentes edições da avaliação ou comparar os resultados de escolas e redes com características semelhantes.

Decisões orientadas por dados

Os dados, por si só, não indicam quais decisões devem ser tomadas. Eles ajudam a formular perguntas que orientam o trabalho das redes e das escolas. Quando um grupo de estudantes apresenta desempenho inferior aos demais, por exemplo, a análise precisa avançar para compreender quem são esses alunos, quais obstáculos enfrentam e quais estratégias podem favorecer sua aprendizagem.

Bruna cita questionamentos que ajudam a construir esse diagnóstico: “Existe uma diferença entre estudantes de níveis socioeconômicos distintos? Como é o desempenho dos estudantes mais vulneráveis em relação aos menos vulneráveis? Existe diferença entre estudantes pretos, pardos e indígenas em relação a estudantes brancos e amarelos? Essa diferença aumentou ao longo dos anos?”. Segundo ela, as respostas a essas perguntas permitem direcionar ações mais específicas para os estudantes que precisam de maior apoio.

O mesmo raciocínio vale para o fluxo escolar. Uma rede pode apresentar bons resultados de aprendizagem e, ao mesmo tempo, registrar aumento das taxas de reprovação ou abandono. Nesses casos, explica a pesquisadora, os dados ajudam a identificar as dificuldades e a orientar medidas antes que o estudante interrompa sua trajetória escolar.

“Como isso está acontecendo? Quais estudantes estão deixando de frequentar a escola? Existe um padrão de faltas ou de evasão? Como fortalecer as ações de busca ativa? Como acompanhar a frequência de forma mais sistemática? Como aproximar as famílias e oferecer apoio antes que o estudante chegue à condição de abandono?”. Essas perguntas, afirma Bruna, transformam os indicadores em instrumentos para planejar intervenções e acompanhar seus resultados.

As informações produzidas pelas avaliações externas também exigem cuidado na forma como são incorporadas ao cotidiano das escolas. Bruna ressalta que esses resultados cumprem uma função de monitoramento e diagnóstico da aprendizagem e ajudam a orientar a formação de professores, o planejamento pedagógico e o fortalecimento das habilidades e competências que ainda precisam ser desenvolvidas. Cada resultado pode dar origem a novas perguntas, novos diagnósticos e novas estratégias de ensino.

“Quando a escola trabalha o currículo de forma consistente, desenvolvendo as competências e as habilidades previstas para cada etapa, a melhoria dos resultados vem como consequência. O foco permanece na aprendizagem, não na pretensão de uma nota específica ou em um treinamento voltado para a avaliação”, finaliza.

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