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Códigos da violência simbólica: o que a escola ainda não vê

Enquanto educadores discutem bullying e cyberbullying, os adolescentes já usam outro idioma: o da violência simbólica — sedutora, ágil e normalizada, que molda a cultura escolar quando não é reconhecida.
violência simbólica
Foto de Karen Cardial

Karen Cardial

Jornalista Especialista em Educação

  • Publicado em 29 abril 2025
Enquanto educadores discutem bullying e cyberbullying, os adolescentes já usam outro idioma: o da violência simbólica — sedutora, ágil e normalizada, que molda a cultura escolar quando não é reconhecida.

Por Karen Cardial

Um adolescente de 13 anos mata uma colega da escola, sob influência de discursos violentos nas redes. A cena é ficcional, mas tão plausível que virou série. Adolescência, da Netflix, escancara o que muitas escolas ainda evitam enxergar: a violência simbólica está entre os estudantes, circulando sob formas sutis, digitais e normalizadas.

Não se trata de exagero. Ela se revela em provocações, figurinhas depreciativas, pressões estéticas, comparações cruéis, exclusões e memes humilhantes – tudo compartilhado por meio de redes, emojis e piadas que viralizam. Esses elementos formam um vocabulário violento, frequentemente negligenciado pela rotina escolar.

“Muitas vezes, eles não conseguem ou não têm coragem de contar o que vivem, mas seus comportamentos falam”, afirma Kelli Angelini, advogada especialista em Direito Digital e Educação Digital. Esse olhar atento, cotidiano e próximo é, segundo a especialista, o que permite à escola perceber essas violências antes que ganhem proporções maiores.

A escola precisa ser também um lugar onde tanto quem sofre a violência quanto quem a pratica possa falar. “O estudante precisa encontrar apoio mesmo quando erra. A escola forma cidadãos, e isso inclui prepará-los para a vida em sociedade, inclusive a digital”, reforça Kelli, autora do livro Segredos da internet que crianças e adolescentes ainda não sabem, finalista do Prêmio Jabuti.

Códigos da violência simbólica
Segundo Kelli Angelini, a escuta ativa e a atuação pedagógica são caminhos para romper o ciclo da violência simbólica.

"O estudante precisa encontrar apoio mesmo quando erra. A escola forma cidadãos, inclusive para a vida digital." (Kelli Angelini)

Para a neurocientista Daiane Fraga, especialista em Neuroplasticidade e Transtornos Psiquiátricos, o cérebro adolescente, ainda em fase de construção de identidade e valores, responde de forma intensa a esses reforços simbólicos. “Curtidas, risadas e compartilhamentos, funcionam como recompensas para o cérebro em desenvolvimento. Quando esse reforço está ligado à humilhação de outros, ele molda uma forma distorcida de pertencimento”, esclarece.

Esse processo pode se intensificar em ambientes on-line com baixa moderação, em que discursos misóginos, racistas e extremistas ganham espaço e acolhimento. Um exemplo disso é a adesão de jovens a comunidades com ideologias incel – termo derivado da expressão inglesa involuntary celibate, que significa “celibatário involuntário”, ou seja, homens que se declaram incapazes de manter relações afetivo-sexuais, não por escolha, mas por sentirem-se socialmente excluídos. Muitas vezes, esse grupo canaliza frustrações em discursos de ódio, especialmente contra as mulheres. A série Adolescência retrata, justamente, esse tipo de narrativa, ao apresentar um protagonista envolvido com comunidades digitais que cultivam desprezo pela figura feminina e que alimentam comportamentos violentos como forma de afirmação. Esses grupos constroem espaços de validação para falas humilhantes e misóginas, frequentemente naturalizadas nas escolas sob a forma de piadas ou provocações aparentemente inofensivas. “Jovens buscam pertencimento e, infelizmente, encontram comunidades que validam essas ideias radicais”, diz Daiane, que também é coordenadora da Pós-Graduação em Neurociência do Comportamento da Criança.

“Curtidas, risadas e compartilhamentos funcionam como recompensas para o cérebro em desenvolvimento.” (Daiane Fraga)

Códigos da violência simbólica
Daiane Fraga afirma que a busca por pertencimento pode tornar adolescentes vulneráveis a discursos radicais online.

Por isso, a identificação dos sinais deve ser acompanhada de uma atuação firme, ética e educativa. “É preciso acolher, convocar as famílias, compreender o contexto e intervir com orientações e medidas pedagógicas. A escola não pode se omitir. Nenhuma forma de violência deve ser tolerada”, afirma Kelli.

Ela destaca que a equipe escolar precisa ser capacitada e sensível aos sinais emocionais, comportamentais e sociais. E que essa atuação exige mais do que protocolos internos: é essencial construir uma relação real com pais e responsáveis, orientando-os sobre os riscos da cultura digital e ajudando-os a compreender como agir quando surgem situações de convivência violenta entre os estudantes. “A escola não pode trabalhar sozinha quando falamos de redes sociais. Família e escola precisam ser aliadas”, completa.

O papel do currículo também é central. Para ir além da conscientização genérica e realmente formar estudantes com vínculos, escuta e senso crítico, Kelli defende que o currículo escolar esteja comprometido com a formação integral dos estudantes, como propõe a Base Nacional Comum Curricular. Isso significa incluir, de forma transversal, temas que dialoguem com a vida dos estudantes, como o uso responsável das tecnologias, a convivência respeitosa e a valorização da diversidade.

A BNCC também destaca a importância das competências socioemocionais e da cultura digital, como dimensões fundamentais para o desenvolvimento integral. Para isso, Kelli sugere práticas como rodas de conversa, projetos interdisciplinares, mediação e resolução pacífica de conflitos, além de atividades que estimulem empatia e pensamento crítico. 

“A escola não pode trabalhar sozinha quando falamos de redes sociais. Família e escola precisam ser aliadas.” (Kelli Angelini)

Dois exemplos ilustram bem como esse trabalho pode ganhar corpo dentro da escola. Em uma escola pública do interior de São Paulo, professores de Língua Portuguesa e Arte se uniram para um projeto interdisciplinar em que os estudantes criaram roteiros e vídeos encenando situações de exclusão digital. Depois, as turmas assistiram aos materiais e participaram de rodas de conversa mediadas por educadores. A atividade ajudou os adolescentes a compreender os impactos da violência simbólica, ao se colocarem no lugar de quem sofre a exclusão.

Outro exemplo citado por Kelli é o de uma escola que, ao perceber o uso de figurinhas ofensivas entre os estudantes, em grupos de mensagem, criou um protocolo interno de escuta: cada professor passou a relatar semanalmente, em reunião pedagógica, alterações de comportamento percebidas em sala. Com isso, foi possível identificar precocemente uma estudante que havia sido alvo recorrente de exclusões e piadas de mau gosto. A intervenção rápida da equipe, com apoio da família e acolhimento contínuo, impediu que o caso evoluísse para um quadro de evasão ou adquirisse proporções trágicas.

Combater a violência simbólica é, portanto, mais do que identificar memes ofensivos ou piadas de mau gosto. É construir um ambiente escolar capaz de decifrar os sinais, acolher com responsabilidade e formar estudantes preparados para as relações digitais. Decifrar esses códigos não é apenas reconhecer o que viraliza nas telas – compreender o que silencia, exclui e machuca nos bastidores da convivência escolar.

Confira o trailer da série:

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