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De fato, entre nós: educação inclusiva para estudantes surdos

Reconhecido no Seminário de Boas Práticas da Soluções Moderna, projeto mostra que a inclusão só ocorre quando a linguagem ocupa toda a escola.
Foto de Karen Cardial

Karen Cardial

Jornalista Especialista em Educação

  • Publicado em 10 junho 2026

Foi convivendo com estudantes surdos na rede municipal de Votuporanga (SP) que a professora Fabiana Saraiva de Paulo notou os efeitos dessa ausência em materiais pedagógicos, avaliações e espaços cotidianos da escola.

Atuando no Atendimento Educacional Especializado (AEE) bilíngue e como intérprete de Libras na sala de aula regular, ela acompanhava esses estudantes em diferentes momentos da rotina escolar e percebeu algo que chamou sua atenção: muitas crianças participavam das atividades, demonstravam interesse, construíam conhecimentos e acompanhavam as propostas desenvolvidas pelos professores, mas, ainda assim, encontravam barreiras ao tentar demonstrar aquilo que haviam aprendido.

Graduada pela Unifev desde 2012, com especializações em Libras, Deficiência Intelectual, Atendimento Educacional Especializado (AEE), Análise do Comportamento Aplicada (ABA) e Transtorno do Espectro Autista (TEA), Fabiana atua com estudantes surdos e deficientes auditivos, desenvolvendo o trabalho com a Libras como primeira língua e a Língua Portuguesa escrita como segunda língua. Filha de pais surdos, condição conhecida pela sigla CODA (Children of Deaf Adults), reúne vivência pessoal e experiência profissional em sua atuação na educação bilíngue para surdos.

“Mesmo na Educação Infantil, em que as avaliações costumam ser bastante ilustradas, elas ainda não contemplavam a Libras. Tinham imagens, cores, mas não necessariamente respeitavam a língua de aquisição daquela criança”, relata a professora.

A observação a levou a refletir sobre a maneira como a aprendizagem vinha sendo avaliada. Muitas atividades eram construídas com base na percepção dos sons das letras, da identificação de fonemas ou da associação entre sons e palavras. Essas estratégias são usualmente empregadas no ensino de crianças ouvintes, mas não dialogam com a realidade linguística dos estudantes surdos, que constroem conceitos, compreendem o mundo e organizam sua aprendizagem por meio da Libras, frequentemente sua primeira língua.

Segundo Fabiana, essa realidade era frequentemente constatada quando a escola precisava entender o que havia sido aprendido. Em muitos casos, a avaliação não conseguia mostrar aquilo que a criança realmente sabia, porque estava baseada em habilidades que dependiam da audição. As adaptações surgiram justamente para tornar esses instrumentos mais coerentes com a realidade linguística dos estudantes surdos. Como destaca a professora, “o objetivo nunca foi facilitar a avaliação, mas permitir que ela avaliasse de fato aquilo que a criança sabia”.

Foi dessa necessidade que nasceu um trabalho de adaptação de materiais pedagógicos e avaliações, reconhecido na premiação “Resultados que transformam”, no Seminário de Boas Práticas, promovido pela Soluções Moderna em parceria com a SET Brasil.

“O compartilhamento antecipado das atividades e avaliações nos permite eliminar barreiras e implementar adaptações que garantam o acesso real do estudante surdo ao que está sendo proposto” (Fabiana Saraiva de Paulo)

Construção coletiva

A adaptação dos materiais pedagógicos e das avaliações envolve professor regente, professor do Atendimento Educacional Especializado (AEE) bilíngue e intérprete de Libras. O trabalho é construído de forma colaborativa e começa muito antes de a atividade chegar às mãos do estudante.

“Eu costumo dizer que é uma engrenagem e ela só gira se todo mundo estiver alinhado”, explica Fabiana.

Um dos fatores mais importantes é o compartilhamento antecipado dos conteúdos, das atividades e das avaliações. “Quando recebemos esse material antecipadamente, conseguimos analisar o que pode representar uma barreira para o estudante surdo e pensar nas adaptações necessárias antes que as atividades sejam aplicadas. Isso nos permite planejar com intencionalidade e garantir que o estudante tenha acesso real ao que está sendo proposto”, orienta.

Durante esse processo, são analisadas atividades muito dependentes da oralidade, da percepção dos sons ou de habilidades ligadas à audição. Em seguida, são construídas estratégias que permitam ao estudante acessar o mesmo conteúdo por outros caminhos, sem alterar aquilo que se pretende ensinar.

Em muitos materiais, por exemplo, são inseridos sinais em Libras relacionados às imagens trabalhadas nas atividades. Também são utilizados recursos como a datilologia, o alfabeto manual da Libras, associado às palavras apresentadas.

Um dos exemplos citados pela professora aparece nas atividades de rimas. Enquanto estudantes ouvintes identificam semelhanças sonoras entre palavras, estudantes surdos precisam acessar essas relações por meio de elementos visuais. Nesses casos, partes das palavras passam a ser destacadas para que padrões e semelhanças possam ser observados visualmente.

“A criança surda observa detalhes, padrões e informações visuais com muita atenção. Nós usamos essa característica a favor da aprendizagem”, explica.

A valorização dessa percepção visual foi um dos aprendizados mais importantes do projeto. Em vez de concentrar esforços apenas nas dificuldades enfrentadas pelos estudantes surdos, a equipe passou a explorar suas potencialidades, transformando características já presentes em ferramentas para a construção do conhecimento.

Sinais de pertencimento

Se as barreiras enfrentadas pelos estudantes surdos estavam relacionadas à linguagem, a presença da Libras precisava ultrapassar os limites da sala de aula e alcançar toda a comunidade escolar, deixando de estar restrita apenas às atividades e avaliações.

Foi então que a escola passou a investir na identificação de espaços por meio de placas com imagens, palavras e sinais em Libras. A língua tornou-se mais visível nos corredores, ambientes de convivência e diferentes espaços da instituição, passando a integrar o cotidiano escolar.

Esse movimento também ajudou a transformar a compreensão da comunidade escolar sobre inclusão. “Outro desafio foi desconstruir a ideia de que a presença do intérprete de Libras sozinha resolveria todas as necessidades desse estudante. O intérprete tem um papel fundamental, mas a inclusão envolve planejamento pedagógico, materiais acessíveis, ambiente adaptado e o envolvimento de todos os profissionais da escola”, afirma Fabiana.

Não demorou para que os resultados positivos dessa iniciativa fossem verificados não somente entre os estudantes surdos, mas todo o corpo discente. As crianças ouvintes passaram a demonstrar curiosidade pelos sinais e a buscar formas de se comunicar com os colegas surdos.

Segundo a professora, era comum ouvir perguntas como: “Tia, esse sinal está certo?” ou “Como eu falo isso para o meu amigo?”. A Libras deixou de ser um recurso utilizado por poucos e passou a fazer parte da cultura escolar.

Um lugar ao sol

As mudanças apareceram na participação dos estudantes surdos, na autonomia durante as atividades e na segurança para demonstrar conhecimentos. Mas, para Fabiana, os resultados mais importantes estão relacionados ao pertencimento.

Quando a criança encontra sua língua presente nos materiais, nos espaços e nas relações cotidianas, ela percebe que suas características linguísticas são reconhecidas e valorizadas. Além de acolher o estudante, a escola passa a comunicar, na prática, que a linguagem utilizada por ele para aprender e se comunicar tem lugar naquele ambiente.

Crianças ouvintes passaram a reproduzir sinais em casa, ensinando Libras para familiares e ampliando o contato com a língua e com a cultura surda.

Entre as famílias dos estudantes surdos, fortaleceu-se a percepção de que estes têm suas necessidades linguísticas reconhecidas e respeitadas. Isso contribuiu para ampliar a confiança na instituição e fortalecer a parceria entre família e escola.

Inspiração

Para gestores e professores interessados em desenvolver iniciativas semelhantes, Fabiana destaca que o primeiro passo é conhecer profundamente o estudante e compreender sua forma de aprender. O trabalho colaborativo entre os profissionais da escola, o planejamento antecipado e a valorização da Libras em diferentes espaços são fundamentais para o sucesso do processo.

“A inclusão não acontece apenas quando a criança está matriculada na escola. Ela acontece quando a criança compreende, participa, aprende e consegue demonstrar tudo aquilo que sabe”, conclui.

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