Um estudante que troca letras na escrita, evita ler em voz alta e demonstra dificuldade para compreender textos passa, pouco a pouco, a ser definido por aquilo que não consegue fazer. As cobranças aumentam, as famílias são chamadas à escola e o rendimento acadêmico se torna o centro das preocupações. Nem sempre, porém, a mesma atenção é dedicada à origem dessas dificuldades. Identificá-las precocemente evita que anos importantes da escolarização sejam marcados por barreiras que podem ser enfrentadas com intervenções adequadas.
“A dislexia é um transtorno específico de aprendizagem de origem neurobiológica que afeta principalmente a habilidade de leitura, escrita e compreensão de textos. Ela se manifesta de maneira sutil ainda na Educação Infantil, quando todas as crianças estão no mesmo processo de alfabetização. Isso dificulta reconhecer que o aluno tem um transtorno específico de aprendizagem”, explica Kátia Moreira, docente de Sociologia do Instituto Federal do Acre (Ifac), especialista em Psicopedagogia Clínica Institucional e Neuropsicopedagogia Clínica, mestra em Ciências da Educação e coordenadora do Núcleo de Atendimento às Pessoas com Necessidades Específicas (NAPNE) do campus Rio Branco.
Segundo a Associação Brasileira de Dislexia (ABD), cerca de 4% da população brasileira apresenta o transtorno, o equivalente a mais de 7 milhões de pessoas. O dado reforça a importância de que professores e gestores estejam preparados para reconhecer sinais que, sobretudo durante a alfabetização, costumam surgir de forma discreta.
A especialista explica que a dislexia pode se apresentar nos níveis leve, moderado ou severo, definidos pela intensidade das dificuldades apresentadas. Embora ela afete principalmente a leitura, seus efeitos também alcançam a compreensão de textos, a escrita, a decodificação dos sons, a consciência fonológica, a linguagem oral, habilidades motoras, funções executivas e competências socioemocionais. “Essa bagagem de características pode causar muitos prejuízos ao aluno se a dislexia não for identificada e se ele não receber as intervenções necessárias”, afirma.
A sutileza com que a dislexia se manifesta nos primeiros anos de escolarização ajuda a explicar por que tantos casos passam despercebidos justamente no período em que intervenções precoces fariam mais diferença. Durante a Educação Infantil, todas as crianças estão construindo as bases da leitura e da escrita, o que torna menos evidente distinguir dificuldades próprias da alfabetização de sinais que merecem uma investigação mais cuidadosa.
Nesse período, algumas crianças demoram mais tempo para memorizar as letras e associá-las aos sons correspondentes. “Trocas entre b e d, ou f e v, por exemplo, podem aparecer tanto na escrita quanto na linguagem oral e já funcionam como um importante sinal de alerta”, orienta Kátia.
No Ensino Fundamental, essas diferenças passam a aparecer com mais nitidez. Dificuldades para reconhecer rimas, leitura silabada e lenta, pausas frequentes na tentativa de decifrar as palavras, baixa compreensão dos textos e trocas de letras na escrita começam a interferir de forma mais evidente na aprendizagem.
“Eles costumam não aceitar a leitura em voz alta. Fogem, evitam esse momento porque sabem que farão uma leitura diferente da dos colegas. Leem com pausas frequentes, tentando decifrar as palavras, ficam ansiosos e pedem dispensa dessa tarefa para não terem suas dificuldades expostas”, explica a especialista.
Compreender o significado do texto costuma representar um desafio ainda maior e a frustração aparece cedo. O estudante inicia a atividade, percebe que não conseguirá realizá-la como esperava e abandona a tarefa antes de concluí-la. Kátia cita que há dificuldade para acompanhar instruções verbais, organizar sequências de ações e executar etapas de uma mesma atividade.
Quando esse conjunto de sinais é interpretado apenas como desinteresse, dispersão ou falta de dedicação, a escola deixa escapar a oportunidade de investigar o que realmente está acontecendo. “O professor que não tem experiência e sensibilidade para reconhecer um possível disléxico enxerga um aluno desleixado, que não presta atenção no que está fazendo, que só brinca e é disperso. É quando as reclamações começam a surgir para os pais”, afirma a especialista.
No Ensino Médio, as dificuldades tornam-se ainda mais evidentes quando não foram reconhecidas e trabalhadas nos primeiros anos da escolarização. Como a leitura, a interpretação de textos e a escrita permeiam praticamente todas as disciplinas, os impactos acabam alcançando o rendimento acadêmico como um todo.
“Muitos adolescentes e até adultos disléxicos foram diagnosticados tardiamente e sofreram prejuízos na vida acadêmica, dificuldades que tiveram de superar sozinhos, barreiras que não foram vistas pelos educadores nem pelos pais. Em cada fase da Educação Básica, a dislexia traz desafios diferentes, mas a dificuldade principal permanece voltada para a leitura e acaba refletindo na escrita durante toda a vida acadêmica”, afirma a especialista.
Linha de frente
A confirmação da dislexia reúne profissionais de diferentes áreas. Neuropsicólogos, psicólogos, fonoaudiólogos, neuropsicopedagogos e psicopedagogos participam da avaliação. O diagnóstico é concluído por um neuropediatra, no caso de crianças e adolescentes, ou por um neurologista, na vida adulta.
“Os professores estão na linha de frente e podem fornecer todas as informações necessárias para subsidiar essa investigação. O desempenho do aluno em sala de aula, as dificuldades específicas que ele apresenta e a forma como reage aos diferentes tipos de estímulo são dados muito valiosos”, afirma Kátia.
O acompanhamento realizado pela escola também permite verificar como o estudante responde ao suporte recebido e quais estratégias favorecem seu desenvolvimento ao longo do tempo.
“É uma parceria entre a equipe multidisciplinar, a escola, representada principalmente pelo professor, e a família. É esse trabalho em conjunto que leva ao diagnóstico correto da dislexia”, conclui a especialista.
Plano de Ensino Individualizado (PEI)
A identificação da dislexia possibilita um planejamento pedagógico mais individualizado. Com base nas necessidades apresentadas pelo estudante, a escola pode organizar adaptações que favoreçam sua aprendizagem sem alterar os objetivos previstos para a turma. O Plano de Ensino Individualizado (PEI) torna-se um importante instrumento nesse processo porque permite ajustar estratégias, recursos e formas de acompanhamento de acordo com as características de cada aluno.
“Podemos usar recursos visuais, com mais imagens nos slides, nuances de cores, mapas mentais com informações claras e objetivas, que conectam uma informação à outra. Também é possível empregar a tecnologia assistiva, por exemplo, softwares de leitura desenvolvidos para pessoas cegas e que são excelentes recursos para estudantes disléxicos. Outra estratégia é a leitura guiada, feita parágrafo por parágrafo, que auxilia na compreensão do conteúdo até que o estudante consiga avançar para textos mais longos”, explica Kátia.
A especialista também recomenda oferecer materiais adaptados, com fontes maiores, bom espaçamento entre as linhas e diferentes possibilidades de avaliação, respeitando as necessidades do estudante sem perder de vista os objetivos de aprendizagem.
“As avaliações também precisam ser flexibilizadas. O aluno pode fazer uma gravação de áudio, oralizar o que aprendeu ou conversar com o professor sobre determinado conteúdo. Não precisa ser sempre uma avaliação relacionada à leitura e à escrita”, afirma.
Kátia destaca a importância de um ambiente acolhedor. O estudante precisa sentir-se seguro para participar das atividades, errar, fazer perguntas e desenvolver autonomia. Isso também envolve preparar a turma para compreender que a dislexia não reduz a capacidade de aprender, apenas exige caminhos diferentes para que a aprendizagem aconteça.
Pedra sobre pedra
Anos de dificuldades, sucessivas frustrações e interpretações equivocadas sobre a própria capacidade de aprender comprometem a autoestima, relações sociais e o bem-estar emocional do estudante. Quando a dislexia não é diagnosticada e o estudante permanece sem receber o suporte necessário para superar os obstáculos que ela traz, a vida escolar fica permeada por sofrimento e o desenvolvimento é comprometido.
A dislexia também pode coexistir com outras condições, situação conhecida como comorbidade, termo utilizado para descrever a presença simultânea de dois ou mais transtornos ou condições em um mesmo indivíduo.
“Entre as comorbidades mais comuns estão o transtorno de ansiedade generalizada, a depressão e a síndrome do pânico. Hoje os estudos já evidenciam que o transtorno específico de aprendizagem pode ocorrer associado a transtornos do neurodesenvolvimento, como é o caso do TDAH. A pessoa com dislexia precisa de todo o apoio multidisciplinar, familiar e social para ter pleno desenvolvimento”, explica Kátia.
A falta de compreensão sobre a dislexia também interfere na convivência escolar. Com frequência, estudantes passam a ser vistos com base nas dificuldades que apresentam e acabam ocupando uma posição de maior vulnerabilidade nas relações com os colegas.
“É muito comum que o aluno com dislexia seja incompreendido, não só pelos professores, mas também pelos colegas. Frequentemente ele se torna alvo de bullying por desconhecimento do que é a dislexia e das dificuldades que ela pode acarretar. O aluno com dislexia não é menos capaz. Ele precisa de um olhar específico para as suas necessidades”, afirma a especialista.
Para Kátia, prevenir esse cenário exige que a conscientização seja incorporada ao cotidiano da escola e envolva toda a comunidade escolar.
“A escola precisa promover atividades de conscientização, rodas de conversa e relatos de experiências destinados principalmente à turma do aluno ainda no começo do ano letivo. Essas ações precisam acontecer de forma periódica para que haja uma cultura de inclusão, em que cada pessoa compreenda que todos aprendem de maneira diferente e que essas diferenças nunca devem ser motivo de discriminação, preconceito ou capacitismo”, conclui.
Reconhecer a dislexia ainda nos primeiros anos da escolarização significa oferecer a esse estudante a oportunidade de construir uma trajetória diferente daquela vivida por tantos adolescentes e adultos que foram diagnosticados apenas depois de anos acumulando frustrações. Cada sinal percebido a tempo, intervenção planejada e estratégia pedagógica adequada representa a possibilidade de que ele avance na aprendizagem sem transformar suas dificuldades em marcas permanentes de insegurança.
Ao longo da vida, esse reconhecimento influencia a forma como a criança e o adolescente passam a enxergar suas próprias capacidades, fortalece sua autoestima, favorece as relações que estabelece, amplia suas oportunidades de formação e reduz as barreiras que poderiam acompanhá-los na vida acadêmica e profissional. Compreender a dislexia desde cedo significa criar condições para que o transtorno não defina os caminhos que esse estudante poderá seguir.

