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Pensar com a máquina: por que a IA desafia o professor a ser ainda mais humano

A inteligência artificial chegou primeiro aos estudantes, mas ainda encontra resistência entre educadores. Transformá-la em aliada depende menos de domínio técnico e mais de intencionalidade, escuta e coragem para errar.
Foto de Karen Cardial

Karen Cardial

Jornalista Especialista em Educação

  • Publicado em 26 maio 2025
A inteligência artificial chegou primeiro aos estudantes, mas ainda encontra resistência entre educadores. Transformá-la em aliada depende menos de domínio técnico e mais de intencionalidade, escuta e coragem para errar.

Por Karen Cardial

“Não quer se perder na era da Inteligência Artificial? Seja o mais humano possível.” A provocação de Graziella Matarazzo – mestre em Educação pela PUC-SP, pedagoga pela USP e especialista em Design Thinking – não é um alerta distópico, mas um chamado à ação. Coordenadora de Tecnologia Educacional no Colégio Albert Sabin, ela atua há mais de uma década com formação docente em metodologias inovadoras e acredita que a IA não veio para ocupar o lugar do professor, mas para exigir que ele reveja sua forma de ensinar.

Nas palavras dela, a IA precisa ser compreendida menos como ferramenta e mais como companhia intelectual. Uma espécie de espelho que devolve perguntas, confronta respostas e desafia raciocínios. “Quando um estudante interage com a IA, não está apenas buscando uma resposta pronta – está exercitando hipóteses, comparando fontes, testando ideias. E o papel do professor é justamente mediar esse processo, não bloquear o acesso”, explica Graziella.

“Transformar a IA em aliada do pensamento crítico exige propostas simples, intencionais e abertas ao erro – mais do que domínio técnico” (Graziella Matarazzo)

“Não se trata apenas de ensinar a usar a tecnologia, mas de ensinar a pensar com ela.”

O conceito de “inteligência distribuída”, proposto por Roy Pea, da Universidade de Stanford, é um bom ponto de partida: aprendemos a pensar melhor quando contamos com apoio externo – foi assim com os buscadores, agendas eletrônicas e, agora, com os sistemas generativos. Mas o desafio pedagógico vai além do domínio técnico. Trata-se de fazer com que a IA esteja a serviço do pensamento, não do atalho.

Segundo Graziella, o essencial é transformar a IA em parceira de pensamento, não em uma fábrica de respostas. E isso começa com propostas simples: por exemplo, em aulas de Língua Portuguesa, os estudantes podem usar a IA para revisar e sugerir melhorias em seus próprios textos para, depois, debater as alterações em grupo, refletindo sobre coesão, clareza e estilo. Em Matemática, ela recomenda explorar o raciocínio da IA para resolver um problema e, em seguida, convidar os alunos a identificar falhas, propor outras estratégias e avaliar as diferenças.

“Transformar a IA em parceira de pensamento é mais potente do que esperar respostas prontas.”

Em sua experiência, ela propõe aos professores a criação de atividades em que os estudantes elaboram perguntas (prompts) para a IA com um objetivo específico – como compreender um conceito científico ou criar uma introdução para um artigo de opinião – para depois refletir sobre o resultado: o que deu certo? O que pode ser melhorado? “Trabalhar a escrita dos prompts e propor objetivos claros para o uso da IA já é um exercício de metacognição”, reforça a especialista.

Ela destaca ainda que a IA só é potente quando usada com intenção. “E isso não depende de grandes aparatos, mas de bons desafios pedagógicos”, diz. No colégio onde coordena a área de Tecnologia, Graziella integrou a IA às aulas de STEAM e Novas Tecnologias. Ali, os estudantes são incentivados a usá-la como apoio em processos criativos e investigativos: estruturam pesquisas, analisam fontes, testam hipóteses. “Mais do que obter respostas, o exercício é errar com inteligência e aprender com os próprios erros – e com os da IA, que também erra”, afirma.

IA

“Trabalhar a escrita dos prompts já é um exercício de metacognição.”

A resistência ainda presente entre muitos professores tem raízes compreensíveis: receio de substituição, insegurança técnica, pressão por resultados imediatos. Para Graziella, a gestão escolar tem papel decisivo nesse cenário. Criar um ambiente onde o erro é aceito como parte do processo, onde o tempo do pensar é valorizado, é condição para qualquer inovação.

Ela cita as pesquisas do Project Zero, de Harvard, sobre as “Forças Culturais da Aprendizagem”, para lembrar que não basta oferecer ferramentas – é preciso transformar o ambiente em que elas serão usadas. “Não se trata apenas de ensinar a usar a tecnologia”, explica. “Trata-se de ensinar a pensar com ela.”

“Criar espaço para o erro é condição para qualquer inovação na escola.”

Mesmo sem recursos digitais avançados, é possível desenvolver as bases cognitivas e criativas que preparam os estudantes para dialogar com as IAs. Atividades “desplugadas”, como jogos de lógica, construção de narrativas em grupo, desafios com limites estruturais (tempo, espaço, regras) já desenvolvem raciocínio lógico, empatia e cooperação. “Essas são as competências que sustentarão o uso ético da tecnologia”, diz Graziella.

Porque, no fim das contas, a IA não é um fim – é um meio. E um meio só faz sentido quando serve a um propósito. Na escola, esse propósito continua sendo o mesmo: formar sujeitos que pensem com profundidade, criatividade e consciência.

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